O Final do Fim: Entre a corda e o gancho

Era uma ensolarada manhã de domingo. Se você perguntar a um grupo de pessoas sobre o que acontece geralmente em manhãs de domingo, tenho certeza de que elas responderão “nada”. E eles não estão de todo errados, não. Se você conseguir citar cinco acontecimentos de grande importância que tiveram lugar em domingos, meus parabéns. Sua vida é de uma agitação nunca antes vista pela história da humanidade.

É claro que nessa manhã de domingo particular as coisas não foram tão paradas assim. Se elas tivessem sido, aliás, seria meio inútil você estar lendo esta história. Por que você gostaria de ler algo em que nada acontece? Garanto a você, querido leitor, que a história que estou prestes a contar não é nada tranquila. Aproveito que toquei nesse assunto e já vou logo avisando que por aqui não há a chance de finais felizes. Peço desculpas se já te decepcionei logo de cara, mas a vida é assim: uma sucessão de boas e más histórias. Acredito que esteja saindo do foco. Deixe-me continuar a narrativa.

Pois bem, lembra daquele grupo de pessoas que provavelmente responderia que nada de interessante acontece em manhãs de domingo? Elas estão terrivelmente erradas. E acho que até disse isso, não necessariamente nessas palavras, no último parágrafo.

Eram cerca de onze horas da manhã. Todos da cidade – de nome não relevante para nós, de primeiro momento – já haviam enchido suas panças ou estavam realizando o ato no exato momento. Crianças corriam feito loucas pela rua, todas gritando como se suas cordas vocais não fossem capazes de produzir algum outro som. Mães também gritavam de seus portões, deixando a cena ainda mais turbulenta. Pássaros alçavam voo e se desviavam de outros pássaros à medida que sobrevoavam a cidade e, consequentemente, uma pequena casinha bege de telhas azuis.

A casinha devia ter cerca de cinco metros de largura e se estendia por no máximo quinze por trás da entrada. Um jardim extremamente bem cuidado e cheio de rosas, violetas e margaridas enfeitava a calçada à frente, gerando inveja para as senhoras idosas que passavam todos os dias por ali e, é claro, aproveitavam o ensejo para roubar uma ou outra flor antes de seguir caminho. A frente da casa ostentava uma simples, porém elegante, porta de madeira clara e uma larga (na medida do possível) janela. Se você passasse na frente da casinha nesse domingo quente, às onze da manhã, pensaria que era no mínimo inusitado que densas e escuras cortinas impediam a visualização do interior do ambiente. Afinal, quem era louco a ponto de se trancar dentro de casa num dia tão lindo – e quente – como esses?

Bem, esse louco tinha um nome. E ele não era exatamente louco, apenas deprimido. Seu nome era Kyle.

Enquanto criança, Kyle era o típico C.D.F. da turma. Antissocial de carteirinha, contabilizou até a sua adolescência apenas um amigo: Carlos, com quem perdera contato após a formatura do ensino médio. Começara a faculdade com apenas dezesseis anos e adivinhe: recebeu novamente, por lá, o seu “manto” de C.D.F., e isso continuou a perdurar em sua vida até os vinte anos, quando se formou em Ciência da Computação. Nessa época, porém, Kyle já era menos antissocial e mais aberto a novas amizades. Contabilizou sete amigos durante os quatro longos anos em que esteve na faculdade. Um destes amigos era uma adorável garota – um feito incrível para o menino, na época – com quem, e imagino que você já esperava por isso, Kyle acabou por namorar.

Veja só, o antigo C.D.F. da turma tinha uma namorada! Kyle logo se tornou o orgulho de sua mãe. E não por ter ganhado diversos concursos ao longo de sua trajetória estudantil, mas sim pelo simples fato de ter conseguido uma namorada. A Sra. Edward certamente morreu com um sorriso no rosto – ou morreria, caso não tivesse sido vítima de um terrível câncer. Nesse caso, sua morte não teve como brinde um sorriso no rosto.

Nove longos anos de um relacionamento saudável entre Kyle e a garota da faculdade não culminaram num casamento. É claro que Kyle queria ter se casado, mas a menina não facilitou as coisas para ele. Ela, que havia largado a faculdade no segundo ano, tinha certeza de que se tornaria uma consagrada cantora dali a dois ou três anos – isso ainda na época da faculdade – e, portanto, não haveria como os dois firmarem o compromisso de estarem casados um com o outro. “Minha agenda estará lotada, querido”, ela dizia entre um e outro gole de seu leite com café (não café com leite) todos os dias pela manhã, “Shows todos os dias e tudo o mais… Por que temos de nos casar se, na prática, continuarmos como simples namorados dá na mesma?”. A garota podia até ser bonita (e era, com longos e macios cabelos castanhos e brilhantes olhos esverdeados), mas certamente não era das mais inteligentes. Em sua cabeça desmiolada, ela acreditava veemente que possuir uma aliança em sua mão não cairia bem em sua carreira. É de se admirar que Kyle tenha a conhecido na faculdade de Ciência da Computação.

Os dois podem não ter se casado, mas o amor entre eles era sincero. E antes que jogue esta história que tem em mãos na parede por pensar, talvez, que ela se trata de um romance bastante clichê, peço que tenha calma. Como disse alguns parágrafos antes, finais felizes não têm lugar aqui. E também sei que romances nem sempre têm finais felizes propriamente ditos, mas deixe-me ser mais claro: esta história não é um romance.

E não teria de ser tão claro pois uma olhadela no parágrafo à frente lhe esclareceria as coisas. Que romance começaria com um homem prestes a tirar a sua vida?

Kyle estava decidido a se matar. Ele já tinha atado uma grossa corda a um pequeno gancho no teto de sua casa. Esse era o principal motivo de ele estar com as cortinas fechadas numa bela manhã de domingo. Tudo bem se você quer se matar, mas por que se matar com a janela escancarada, mostrando às inocentes crianças que corriam lá fora (e mal sabiam emitir outro som que não gritos espalhafatosos) a morte de uma maneira tão desnecessária? Ter bom-senso é sempre importante, mesmo prestes a fazer algo como se suicidar, por qualquer motivo que seja.

O motivo, nesse caso, era a mesma garota com quem Kyle namorou por nove anos. Fazia menos de três dias que ela havia o largado para seguir o seu “sonho artístico”, e de certa forma Kyle sempre esperara por esse momento. Ela podia não demonstrar, mas já havia algum tempo desde que ele sentira uma mudança súbita no atmosfera ao redor do casal. Sabe quando entramos numa sala onde está havendo uma discussão acalorada e subitamente sentimos algo “pesado” no ar? Pois bem, era mais ou menos esse o clima que houvera entre Kyle e a garota nos últimos tempos, mesmo que nem uma única discussão tenha havido entre o casal ao longo do relacionamento.

Lá estava Kyle, dando os últimos retoques em seu aparato mortífero. Uma cadeira de madeira posicionada estrategicamente sob a corda, que se esticava por mais ou menos um metro a partir do teto, uma carta de despedida redigida em seu MacBook novinho que ganhara de presente em seu aniversário sobre a mesa de centro da pequena sala de estar e, ao lado da carta, um copo d’água. Para Kyle, encarar a morte com sede não pegava nada bem.

Com as pernas trêmulas, Kyle conseguiu se equilibrar e subir na cadeira, não sem antes, é claro, dar um gole no copo d’água. Foi com muita dificuldade que ele conseguiu passar o laço que fizera na ponta da corda ao redor de seu pescoço. Aquela era a hora. Será que ele encontraria uma vida mais fácil do outro lado? Ou será que, no fim, tudo o que nos resta é a escuridão? Kyle estava, de certa forma, ansioso para descobrir a resposta. Parecia até que ele estava animado em se matar. Naquele momento ele havia passado o laço por seu pescoço e estava prestes a pular da cadeira e usar contra si a incrível ação da gravidade para estrangular o seu pescoço e acabar de uma vez por todas com sua miserável vida. Mas sejamos sinceros: você e eu sabemos que Kyle não morrerá – não agora, pelo menos. Por que diabos me daria o trabalho de introduzir em detalhes um personagem e suas principais relações por longos parágrafos para então narrar a sua morte? Não, querido leitor, Kyle não morre agora. Mas deixe-me descrever a cena.

Parecia que a hora havia finalmente chegado. Kyle então olhou para os cômodos vazios de sua pequena casa e, sentindo uma frustração no peito por se encontrar onde ele se encontrava, por ser quem ele era e, principalmente, por não ter perto de si a garota com quem gostaria de passar o resto de sua vida, não se conteve e gritou a plenos pulmões:

– Me desculpe, mãe!

E então pulou.

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Ei, lembra que tinha dito que Kyle não morreria agora? Eu não estava mentindo. Coloquei um espaço a mais entre o pulo e este parágrafo apenas para deixar a história mais dramática.

Kyle teria morrido se a corda tivesse sido presa corretamente no gancho do teto. Veja bem, ele não era um homem exatamente magro. Devia pesar os seus oitenta quilos; até estava em forma, mas a física nos diz que há um limite de peso para qualquer coisa nesse mundo. A coisa, no caso, era o pequeno gancho de metal preso ao teto de forma tão ingênua. O gancho não seria capaz nem de segurar uma criança de oito anos de idade, ainda mais um homem feito com seus quase trinta anos.

O rapaz se machucou, mas não morreu. Ao pular da cadeira e sentir o gancho se desprender do teto, além de levar um belo puxão no pescoço que deixou na pele uma larga mancha avermelhada, Kyle foi lançado na direção da mesa de centro e acabou se cortando ao cair justamente por cima do copo d’água, quebrando-o instantaneamente e fazendo com que os cacos recém-criados perfurassem a sua pele dolorosamente. Fora uma distensão no joelho e outros hematomas menores que recebeu ao ir de encontro com a mesa.

Atordoado pela queda e um pouco aliviado por ter recebido uma segunda chance do universo, Kyle não pôde deixar de esboçar um sorriso. Ninguém quer se matar verdadeiramente. Se alguém recebe uma segunda chance – ou quase isso –, é sinal de que nem tudo está perdido.

E naquela manhã de domingo, o universo estava conspirando bastante ao favor de Kyle. Não se passou um minuto inteiro quando ele ouviu três suaves batidas na porta da frente, seguidas por uma voz inconfundível. Era sua namorada. Quer dizer, ela não era mais sua namorada há quase três dias, mas acho que você está me entendendo.

– Kyle, você esta aí? – uma pausa. – Por favor, Kyle, vamos conversar!

Kyle queria conversar. E ele teria respondido a garota se não estivesse tentando tirar a corda de seu pescoço. Grunhindo feito um animal qualquer que costuma reproduzir esse tipo específico de som, Kyle se arrastou pelo carpete azul marinho que cobria toda a extensão da sala, tomando cuidado para não enfiar seus cotovelos em mais cacos de vidro.

Enquanto isso, a garota continuava a bater na porta, agora com uma frequência maior. Sua voz parecia ansiosa, um tanto arrependida e, acima de tudo (e ao mesmo tempo), impaciente. Ela tinha as melhores intenções do mundo em ir até a casa de seu namorado (que era, até poucos minutos, seu ex-namorado) numa manhã particularmente quente de domingo para tentar resolver seus problemas com ele, mas agora ela parecia reconsiderar seus motivos. Se ele demorasse demais, ela poderia vir outra hora, é claro. Ou então nem vir mais. Estava ficando claro, para ela, que Kyle não queria mais nada com ela. Provavelmente estaria trancafiado em seu quarto jogando intermináveis partidas de MMORPGs mal feitos com seus amigos virtuais, nem sequer lembrando-se de que há menos de 72h possuía uma bela namorada com uma incrível carreira pela frente. Ela realmente deveria ir embora.

– Kyle, abra! Sei que as coisas estão difíceis entre nós, mas podemos conversar! – mais três batidas na porta. – Kyle, eu estou assando aqui fora, e além de tudo isso tem umas malditas crianças aqui na rua! – ela teve de baixar o tom de sua voz para que as mães das casas vizinhas não ouvissem tal blasfêmia. – Por favor, Kyle, vamos conversar!

“Estou indo, querida”, foi o que Kyle teria dito se não estivesse se sufocando com a espessa corda ainda atada ao redor de seu pescoço. Que maneira legal de se morrer. Você tenta um suicídio, o universo diz “ei, não é bem assim” e te dá mais uma chance. O único porém é que essa chance não valeu quase nada, já que o alívio em não ter partido dessa para melhor que Kyle sentiu durou cerca de 0,85 segundo – o tempo que levou até ele despencar da cadeira em direção ao chão. Kyle estava sendo mais uma vítima do universo. Estava sendo assassinado pelo universo.

Ainda lutando com a corda, nosso herói percebeu que os cacos de vidro começaram a fazer uma dança engraçada sobre o chão. “Ei, os cacos estão pulando”, ele grunhiu, e então recobrou o senso e pensou estar tendo alucinações. Que se dane a física ou qualquer outra explicação para os cacos estarem “pulando”, o cérebro dele calculou.

– Ai meu bom Jesus. Meu Deus. – disse a namorada de Kyle, do outro lado da porta e com a voz abafada da maneira que geralmente ficam quando estão separadas por uma espessa porta de madeira. A voz ia se afastando da porta, enquanto que Kyle observava atônito os cacos de vidro darem saltos cada vez mais altos. – Não, não. O que é aquilo, pelo amor de Deus? – ela continuou, sua voz mais elevada agora.

Kyle estava perdendo lentamente a habilidade de respirar. A corda não queria dar uma folga para seu pescoço e, consequentemente, o oxigênio não estava chegando ao cérebro da maneira que deveria chegar. Resumindo, Kyle não estava conseguindo prestar atenção no cenário à sua volta.

O chão vibrava, fazendo os cacos de vidro vibrarem também. Não era uma alucinação pré-morte, como Kyle havia pensado. O pequeno gancho de metal dava seus pulinhos sobre o chão, movendo-se alguns centímetros a cada nova onda de vibração. Seu MacBook vibrava sobre a mesinha de centro que, adivinhe, também vibrava. Kyle estava estranhando a sua pré-morte. Nunca imaginaria que tudo vibrasse ao seu redor quando estivesse prestes a morrer. Mas é claro que ele não estava prestes a morrer, e eu já disse isso várias vezes ao longo dos últimos parágrafos. Quem estava prestes a morrer era a sua namorada, do lado de fora da casinha bege de telhas azuis, as crianças barulhentas, suas mães e praticamente todo mundo da cidade, do estado, país e do planeta em que todos eles viviam em considerável harmonia. O fim da humanidade, se você preferir. Ou praticamente isso.

A vibração do chão, dos objetos e da casa em si só aumentava, e rápido. Kyle finalmente entendeu que não estava tendo alucinações coisa nenhuma; a coisa era realmente séria lá fora. Ele podia ouvir as crianças gritando lá fora em um tom diferente do que estavam gritando antes. Era mais agudo, mais intenso e, sobretudo, mais espantado. Podia ouvir os gritos de pavor e agora os murros que a sua namorada dava na porta, completamente desesperada.

– Kyle, peloamordeDeusabreessaporta! Kylevocêtaaí? PeloamordonossoSenhor, Kyleabreadrogadaporta! – ela realmente estava desesperada.

Aquelas foram as últimas palavras que Kyle ouviria de uma mulher – ou de qualquer pessoa – por um bom tempo. E o pobre coitado nem sabia disso, nem sequer poderia entender direito o que estava acontecendo enquanto não tirasse aquela maldita corda de seu pescoço. Ele só estava tentando se matar, pelo amor de Deus! Será que o universo não poderia simplesmente colaborar com isso? É claro que não.

E bem que Kyle gostaria de ter morrido nesta particular manhã de domingo. Seria bem mais fácil, sabe? Bem mais agradável de se morrer.

Mas o universo tem um senso de humor questionável.

***

“O Final do Fim” é uma série de contos (ou pequenas histórias, o que você quiser chamar) que comecei a escrever em março do ano passado, abandonei por um tempo e agora resolvi revivê-la e postá-la no blog para tentar deixar isso daqui atualizado. Apesar do nome tosco e do tema batido do Fim dos Tempos, eu quero que vocês a acompanhem com carinho – mesmo que eu não tenha a menor ideia de onde essas histórias vão parar.

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